Educação em Ciência uma construção necessária

 

Saulo Cézar Seiffert Santos

        A sociedade atual tem um movimento muito rápido, o novo fica velho velozmente, isto é um argumento comum em livros de Chassot (2008). O conhecimento e a construção de tecnologia produzem um fluxo no mercado que entram e saem produtos nos quais não acompanhamos, e é possível que mesmo quando se troca um celular ainda não se aprendeu a usar a metade das suas funções (tecnologias).

        É muito interessante que para muitos adolescentes têm dificuldades em imaginar um mundo sem celulares, apesar de que sua popularização no Brasil veio nos anos 90, para alguns é como se o celular sempre existisse. Não somente essa tecnologia, mais as informações nos meios de comunicação como televisão e internet, muitas crianças e adolescente dominam tão bem e se apropriam das informações providas das mesmas que parece que não existiriam eventos se às informações não vieram por meios eletrônicos, parece que não aconteceriam, se transforma em quase em uma ilusão.

        As informações e o conhecimento no mundo contemporâneo são necessários não somente para saber que existem coisas, fenômenos, elementos e idéias. Mas para acompanhar e saber utilizar o que o próprio homem tem produzido, pois as tecnologias avançam e são sucedidas por outras. Muitas das vezes as utilizamos, mas não entendemos como funciona ou talvez o que implicar a sua utilização.

        Um exemplo pode facilita a compreensão sobre o que se está tratando. O que provocou o uso descontrolado de combustível fóssil e a utilização de CFCs (Cloro- Flúor- Carbono) em aerossóis e aparelhos de refrigeração? Percebe-se que mesmo no atual busca de controle de ambos, houve conseqüências diferentes, a primeira com a mudança climática no aquecimento global, que ainda está aquecendo, e a segunda, que também houve a diminuição do buraco da camada de Ozônio, e tem recuperado-se a camada. Com o primeiro pela continua utilização pela população mundial ainda aquece mais e mais, e há países que ainda duvidam dos motivos que o planeta aquece, já o segundo mostra uma prova que a metas mundial e educação mudam a realidade, pois a camada de ozônio muito avançou na sua reconstituição.

        A Educação em Ciências está relacionada com o desenvolvimento de um país, como estratégia para o avanço de uma nação. Desde a disputa de soberania entre Estados Unidos e Rússia com o lançamento do Sputinick até a detonação da bomba atômica no Japão, a Ciência é posta como esperança para os países em ampliar a sua autonomia e influência. No entanto com o avanço da Organização das Nações Unidas (ONU) depois do fim da guerra fria, o sistema capitalista e o neoliberalismo avançaram para um mercado mais tecnológico para o melhor conforto do homem, e venda de soluções para necessidades em forma de produtos e serviços. A Ciência está relacionada a esse mundo, e recebe uma atribuição de valor social.

        No entanto, a educação para os países desenvolvidos e os que estão em ascensão econômica em desenvolvimento atribuiu prioridade em fortalecer não somente o letramento e o uso da matemática, mas também o conhecimento das ciências da natureza para motivar a vocação de futuros engenheiros e cientistas. Segundo Krasilchick (2000) no âmbito internacional que o Ensino de Ciências dos anos 1950 até 2000 houve uma evolução dos objetivos, concepção, instituições promotoras e modalidades didáticas. Relacionando-os cada um deles em pontos, seria assim:

·         Os objetivos inicialmente para formar uma elite em programas rígidos para atualmente formar o cidadão-trabalhador-estudante a partir de parâmetros curriculares federais;

·         Sobre a concepção de ciências vista como neutra evoluiu para uma atividade com implicações sociais;

·         Das instituições promotoras de reformas em bases de projetos curriculares e associações de profissionais para universidades e permanecia das associações profissionais;

·         E das modalidades didáticas recomendadas inicialmente realizadas em aulas prática avançou para jogos ou exercícios no computador.

        A necessidade da Educação em Ciência se dá pelo fato de ter havido essa evolução no contexto do ensino de ciências no âmbito internacional, buscando uma melhoria do ensino em função da sociedade e saiu-se do centro estratégico militar e de formação das elites. Mesmo com desafios a se enfrentar, Malafaia e Rodrigues (2008) assumem a justificação da necessidade efetiva e prática do ensino de Ciências em progresso:

(...) o ensino de ciências justiça-se parcialmente na medida em que se consegue fazer com que os alunos e futuros cidadãos sejam capazes de enfrentar situações  cotidianas, analisando-as e interpretando-as através dos modelos conceituais e também dos procedimentos próprios da Ciência (2008, p. 2).

        Moreira (2004) faz referência aos objetivos para a Educação em Ciências, pois se o estudo sobre as Ciências Naturais é aclamado como importante, a sua delimitação também:

 Talvez, a melhor maneira de esclarecer como percebo a educação em ciências seja distingui-la do treinamento científico, da preparação do futuro  cientista. Esse treinamento está voltado principalmente para o “fazer ciência”, para as teorias científicas e os equipamentos de laboratório, para os  procedimentos científicos teóricos e experimentais.

 A educação em ciências, por sua vez, tem por objetivo fazer com que o aluno venha a compartilhar significados no contexto das ciências, ou seja, interpretar o mundo desde o ponto de vista das ciências, manejar alguns conceitos, leis e teorias científicas, abordar problemas raciocinando cientificamente, identificar aspectos históricos,  epistemológicos, sociais e culturais das ciências.

Idealmente, a formação de um futuro cientista deve incluir a educação em ciências, porém a recíproca não é verdadeira: a educação em ciências não implica “por o aluno no laboratório”, nem “transformá-lo  em um especialista em resolução de problemas”, tampouco “vê-lo como um futuro pesquisador”.

 

A Educação em Ciências muitas das vezes é generalizada como se fosse sinônimo de Ensino de Ciências, sendo partes que se completam; o Ensino de Ciências e Matemática é, por exemplo, uma área de estudo da CAPES (área 46) e ao mesmo tempo o ensino está ligado à docência formal ou informal  com a prática educacional do processo ensino-aprendizagem, porém a Educação em Ciência busca colaborar com respostas sobre o contexto e sua complexidade com as bases teórico-epistemológicas com as suas metodologias (MOREIRA, 2004, 2007). Como também é necessário não se confundir com a Alfabetização Científica, que tem uma esfera mais ampla de discussões, que inclui o ensino escolar de ciências experimentais e a formação do cientista, como também a divulgação científica para o público leigo já fora do sistema escolar (KRASILCHIK; MARANDINO, 2007).

A Alfabetização Científica mesmo sendo originada nos Estados Unidos da America, iniciou-se essas discussões na década de 50 e que teve um aumento de repercussão nas últimas décadas. Nessa discussão, originou o movimento CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) que influenciou até os documentos oficiais de educação, principalmente no que concerne a interação a Ciência e Tecnologia para a Sociedade. 

Como se observa no início do texto, sobre como tantas coisas nos rodeiam de origem da ciência e da tecnologia. Sendo que cada vez mais o artificial torna-se cultural e nos apropriamos do seu uso, por isso é que precisamos compreender as implicações em se opta por tudo isso. Talvez não seja possível compreender o nível técnico profundo da nanotecnologia, ou acompanhar as discussões sobre física quântica e talvez não possa fazer manipulações por engenharia genética em turmas do ensino básico, mas percebemos que o mundo mudar muito rápido, e com essas conquistas que a leitura da ciência faz sobre a natureza pode (ou há a possibilidade, a priori) de ser administrada no nível básico de ensino para acompanhar e criticar o uso das mesmas como um cidadão.

Na esfera da Educação Científica há a tendência da “Alfabetização Científica” na relação Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) que busca uma justiça social na disseminação da Ciência e Tecnologia em pró da Sociedade, com uma máxima de “Ciências para Todos”, isso faz enxergar a disseminação da ciência não somente no meio escolar. No entanto há também várias outras linhas e movimentos, e de formas diferentes de enxergar sobre como se deve alfabetizar cientificamente e quais os critérios para a mesma. Segundo Teixeira (2003, p. 99) o movimento CTS tem proposições formadas para o ensino escolar:

A preocupação em termos dos objetivos da educação científica, colocada num sentido mais amplo e em sintonia com  os demais componentes curriculares, concorrendo para uma visão de educação básica voltada para formação da cidadania;

A visão crítica sobre a natureza da ciência e seu papel na sociedade capitalista;

A focalização da programação em torno de temas sociais e não somente nos conceitos científicos fechados em si mesmos (que possuem valor em si mesmo);

A grande preocupação com estratégias de ensino que efetivamente promovam a interdisciplinaridade e a contextualização;

As recomendações para a utilização de uma multiplicidade de técnicas de ensino e estratégias didáticas sempre destinadas a levar os educandos ao mergulho nas questões sociais de relevância e interesse científico;

As postulações sobre a necessidade de alterações no perfil docente, advogando modificações nos cursos de formação de professores e na implantação de um programa sistemático de formação em serviço, que além de capacitar permanentemente os professores, ofereça a oportunidade de interação entre ensino e pesquisa didática.

 

        Fourez (2003) no seu texto Crise no ensino de ciências entende “Alfabetização científica e técnica” com duas linhas de entendimento, a primeira a formação, à inserção, e a capacidade criativa do cidadão na sociedade. A segunda, a formação do especialista numa carreira em ciência e tecnologia.

        No entanto, há muita discussão sobre vários pontos da Alfabetização científica, um deles é o conceito de “Alfabetização Científica”. Sessaron e Carvalho (2008) entendem a discussão do termo Alfabetização científica a partir de Paulo Freire:

Nós utilizamos a expressão “Alfabetização Científica” baseadas na idéia de alfabetização concebida por Paulo Freire. Para o pedagogo, “a alfabetização é mais  que o simples domínio psicológico e mecânico de técnicas de escrever e  de ler. É o domínio destas técnicas em termos conscientes.  (...)  Implica numa autoformação de que possa  resultar uma postura interferente do homem sobre seu contexto.” (p.111, 1980). Assim pensando, a alfabetização deve ser possibilitar ao analfabeto a capacidade de organizar seu pensamento de maneira lógica, além de auxiliar na construção de uma consciência mais crítica em relação ao mundo que o cerca (2008, p. 2).

 

        Há autores que usa o termo “Letramento científico” em vês de “Alfabetização científica”. Krasilchik e Marandino (2007, p.27) explicam que no campo da linguagem, ser alfabetizado é saber ler e escrever, mas letrado é viver na condição ou estado de quem sabe ler e escrever, ou seja, cultivar e exercendo as práticas sociais que usam a escrita. Ampliando o termo na esfera científica, não seria ler e escrever ciências, mas cultivar e exercer as práticas sociais envolvidas na ciência, fazer parte na cultura científica. No entanto, elas comentam e concorda-se com a visão do significado aplicado pelas autoras abaixo:

(...) apesar de a diferença entre os significados dos termos alfabetização e letramento ser importantes, entendemos que o primeiro já se consolidou nas práticas sociais. Assim, consideramos aqui o significado da expressão alfabetização científica engloba a idéia de letramento, entendida como capacidade de ler, compreender e expressar opiniões sobre ciência e tecnologia, mas também participar da cultura científica da maneira que cada cidadão, individual e coletivamente considera oportuno (2009, p. 30).

 

        É percebido uma relação entre os pressupostos da Alfabetização Científica e a Lei de Diretrizes e Bases (BRASIL, 1996) traz no seu artigo 22 sobre a finalidade da educação básica brasileira, defini “a formação comum e indispensável para o exercício da cidadania”, isto confirmado nos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCN (BRASIL, 1998).

        A compreensão deste movimento que influenciou até os documento oficiais do país gerou motivadores para o Ensino de Ciências na Educação em Ciência. É importante analisá-lo e buscar objetivos não ingênuos para o Ensino de Zoologia.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da República do Brasil. Brasília, 1996.

CHASSOT, A. sete escritos sobre educação e ciência. – São Paulo: Cortez, 2008.

FOUREZ, G. Crise no Ensino de Ciências. Revista Investigações em Ensino de Ciências. v. 8, n. 2, p. 109-123, 2003.

KRASILCHIK, M. Reforma e realidade: o caso do ensino de ciências. Revista Perspectiva. v.(14).n(1).p.85-93, 2000.

MALAFAIA, G; RODRIGUES, A. S. L. Uma reflexão sobre o ensino de ciências no nível fundamental da educação. Revista Ciência e Ensino. v. 2, n. 2, 2008.

MOREIRA, M. A. Pesquisa básica em educação em ciência: uma visão pessoal. Revista Chilena de Educación Científica. v. 3, n. 1, p.10-17, 2004.

MOREIRA, M. A. A área de Ensino de Ciências e Matemática na CAPES: em busca de qualidade e identidade. Em NADIR, R. (org). A pesquisa em ensino de ciências no Brasil: alguns recortes. – São Paulo: Editora Escrituras, 2007.

KRASILCHICK, M; MARANDINO, M. Ensino de Ciências e cidadania.  – 2.ed. São Paulo: Moderna, 2007.

SESSARON, L. H; CARVALHO, A. M. P. Almejando a alfabetização científica no ensino fundamental: a proposição e a procura de indicadores do processo. Revista Investigações em Ensino de Ciências. v. 13, n.  3, p.333-352, 2008.

TEIXRIRA, P. M. M. Educação científica e movimento C.T.S. no quadro das tendências pedagógicas no Brasil. Revista ensino de ciências. v. 3, n. 1, 2003.

 

 

 


 Licenciado em Ciências Biológicas – UFAM. Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação e Ensino de Ciências na Amazônia - UEA.