APROXIMAÇÃO DA TEORIA DO GÊNERO DISCURSIVO E A PERSPECTIVA COMUNICACIONAL DE MUSEUS: CRONOTOPO DAS GERAÇÕES MUSEAIS

Saulo Cezar SEIFFERT-SANTOS1

Marcia Borin da CUNHA2

Texto original em PDF

Como citar: SEIFFERT-SANTOS, S. C.; CUNHA, M. B. APROXIMAÇÃO DA TEORIA DO GÊNERO DISCURSIVO E A PERSPECTIVA COMUNICACIONAL DE MUSEUS: CRONOTOPO DAS GERAÇÕES MUSEAIS. In: Simpósio Nacional de Educação, XXVII Semana da Pedagogia e I Mostra da Pós-Graduação, 2018, Cascavel. Anais do Simpósio Nacional de Educação, XXVII Semana da Pedagogia e I Mostra da Pós-Graduação. Cascavel: Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE, 2018.


Resumo: Os museus podem ser pesquisados na perspectiva comunicativa enquanto mídia discursiva museológica. O nosso objetivo é aproximar o discurso museológico da teoria dos gêneros de discurso de Bakhtin. Construímos este ensaio por meio do diálogo com teóricos da análise de discurso do círculo de Bakhtin, museografia e divulgação científica. Percebemos que a exposição pode ser aproximada do conceito dialógico de obra-enunciado, e assim a integração enunciativa de tema, estilo e forma composicional pode ser relacionada às características das gerações históricas dos museus por meio do cronotopo enquanto gênero discursivo.

Palavras-chave: Museus, Análise do Discurso, Gênero Discursivo, Divulgação Científica.

INTRODUÇÃO

A Divulgação Científica faz uma ponte comunicativa sobre a ciência e a tecnologia junto ao grande público, e normalmente ao público leigo sobre aplicações, descobertas relevantes em algum contexto. Dialoga com o jornalismo científico na missão de democratizar o conhecimento e colaborar na educação em geral.

Na sociedade tecnológica em que vivemos, o empreendimento de desenvolver a cidadania, a qualidade de vida e a compreensão do mundo é fundamental a compreensão de Ciência & Tecnologia (C&T), pois para o acesso às coisas básicas, esse conhecimento é importante, como o ingresso no mercado de trabalho, exercer direitos, consumir produtos, e tomar decisões cotidianas, que vão desde a escolha do alimento até decisões de cunho social, como por exemplo, um abaixo-assinado contra o uso de agrotóxicos no cultivo de vegetais.

Nessa missão, a Divulgação Científica (DC) pode ser disseminada de formas variadas:

a) pelas mídias impressas; b) pelas mídias digitais; c) programas de educação pós-escolar; d) por acesso à mídia de massa; e) atividade educativa em casa ou na comunidade; f) espaços de educação não formal científico, e outras combinações.

1Mestre em Ensino de Ciências e doutorando do PPGECEM/Unioeste. E-mail: sauloseiffert@ufam.edu.br

2Pós-doutora em Educação. Docente do PPGECEM/Unioeste. E-mail: borin.unioeste@gmail.com

Os espaços de educação não formal científico normalmente são categorizados como institucionais (museus, zoológicos, centro de ciências, jardins botânicos, aquários, observatórios astronômicos entre outros) e, por isso, podem ser incluídos na categoria genérica de Museus de Ciências (CHAGAS, 1994); e, os não institucionalizados, que são os locais abertos ao público como praças, parques, ambientes naturais ou urbanos livres (SEIFFERT-SANTOS; FACHÍN-TERÁN, 2013).

A pesquisa em divulgação científica pode ser realizada no campo da educação e/ou na comunicação, sendo que no primeiro permeiam pesquisas sobre a aprendizagem fundamentadas por teorias pedagógicas e epistemológicas, e a segunda por pesquisas ligadas a comunicação discursiva (MARANDINO, 2007; HEIN, 2006).

Observando a pesquisa comunicativa no processo de produção de significado e condições de produção de sentido numa cultura. Cunha (2009) e Cunha e Giordan (2009) concluíram, utilizando a teoria dos gêneros discursivos de Bakhtin, que a Ciência, a comunicação, o público, possuem discursos distintos, e o Discurso da Divulgação Científica (DDC) possui um discurso influenciado pela esfera onde circula esse discurso. Na pesquisa destes autores o DDC se refere à revistas de circulação nacional, a partir do texto verbal.

Num raciocínio análogo, o espaço de educação não formal científico possui estruturas e designer no qual inspira e dirige a atenção e a percepção do visitante. Segundo Davallon (2011) e Marandino (2001) a exposição na organização, estrutura e disponibilização dos artefatos produz um discurso midiático espacial, ou seja, um conceito de exposição.

Neste artigo, o nosso objetivo é realizar uma aproximação do estudo do gênero discursivo de Bakhtin com a abordagem de pesquisa comunicativa em museus, enquanto espaços de educação não formais científicos, ou seja, a dimensão verbal e não verbal da exposição.

Vamos utilizar como base da análise a teoria dos gêneros discursivos de Bakhtin (2017a, 2017b), e dialogar com Fiorin (2016), Machado (2017) e Brait (2013). Por fim, vamos analisar a história dos museus enquanto gêneros discursivos.

CONCEITOS SOBRE GÊNEROS DISCURSIVOS

O papel do museu na divulgação científica e na educação é importante, e tem desde do século XVIII colaborado na formação de coleção, investigação, construção de conhecimento e educação sobre a Ciência & Tecnologia. Essa história do museu não está cristalizada, pelo contrário, se revigora, transforma e acompanha o processo histórico-social.

Nesse sentido, McManus (1992), Marandino (2001) e Friedman (2010) mostram o caminho da mudança e inovação no campo difusão e comunicação científica. E, nesse sentido, queremos fazer algumas aproximações da função comunicativa museológica com conceitos comunicativos e discursivo de Bakhtin.

Em Bakhtin a comunicação moderna passa por uma transformação de conceitos ligados a um idealismo individualista da língua, e seu oposto de objetividade abstrata da linguagem. A tendência era considerar a comunicação como algo estático, cristalizado, hermético e fechado, que se distanciava do movimento e progresso histórico e da vida. Desta forma, Bakhtin apresenta o movimento, a vida, o relativo e a abertura da construção do significado na comunicação, e isto somente pode ser percebido no dialogismo. Aqui o “[...] dialogismo são as relações de sentido que se estabelecem entre dois enunciados” (FIORIN, 2016, p. 22), ou seja, em diálogo, em palavra e sua contrapalavra (resposta).

Essa diferença, Bakhtin chama de “prosificação” em relação aos conceitos poéticos monofônico, ou seja, na prosa, a comunicação é polifônica e “contaminada” por pensamentos distintos de campo sociais diferentes, não ocorrendo somente o estilo da épica e da tragédia. Essas expressões distintas e contaminadas de campos sociais diferentes são portadoras de origem social e contexto socioeconômico em que o seu sentindo possui significado neste contexto e na relação entre falantes, isto é, o signo ideológico (MACHADO, 2017).

O signo ideológico é a expressão cultural construído socialmente em relação dialogal de um referente material (palavra, cor, gesto, etc.) de significação na comunicação num contexto social e histórico. Sendo que o signo ideológico como elo contínuo da passagem entre a organização socioeconômica (infraestrutura) e os sistemas ideológicos (superestruturas), e é a unidade possível material de pesquisa social (VOLOCHÍNOV; BAKHTIN, 1981). Por isso, esse signo ideológico é construído coletivamente, inicialmente, com as pessoas de círculo de proximidade (família, comunidade) em que chama-se ideologia do cotidiano; e, na base da ideologia do cotidiano, o signo é apropriado e reconstruído em algum campo social com função distinta (científica, arte, literatura, política, etc.), denominase de ideologia da esfera social (SILVA, 2011).

O signo ideológico é a base sociopsíquica de comunicação de significado, e a mesma pela palavra, ou seja, a consciência é formada pelo conteúdo de signos ideológico apreendida socialmente em relação social, dialogal, no qual o significado é construído na responsividade. A palavra, o seu sentido no Círculo de Bakhtin, não é a palavra dicionarizada, mas a construção do signo em relação dialógica e, por isso, a palavra não corresponde ao termo “palavra” apenas, mas corresponde a discurso (STELLA, 2017), podendo assumir vários sentidos e enfoques.

Assim, o significado social é dialógico, ou seja, na relação, pois a unidade de sentido não está na frase ou parágrafos, mas pelo enunciado. O emprego efetivo da língua são pelos enunciados (orais e escritos), concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana, e este enunciado é composto por seu conteúdo temático (ligado à atividade humana), estilo linguístico (expressão comunicativa) e construção composicional (forma de organização) (BAKHTIN, 2017a). O enunciado é definido também por três fatores: a) o horizonte espacial comum dos interlocutores; b) o conhecimento e a apreensão comum da situação por parte dos interlocutores; c) a avaliação comum dessa situação (BRAIT; MELO, 2017).

Logo, na prosa, ou na comunicação rica em ideologia do cotidiano e de esferas sociais, a vida se expressa no diálogo, e esse enunciado completo (total, com início, meio e fim) na sua enunciação para um interlocutor por uma resposta. Assim o dialogismo torna-se a base da prosa e a sua fonte de mobilizadora de signos ideológicos.

O enunciado nos seus “tipos estáveis” são compostos pelos gêneros do discurso (ou discursivos) (BAKHTIN, 2017a). Entendemos que gênero são tipos de textos, conjuntos textuais que têm traços em comum. Sendo que os gêneros possuem a mesma constituição dos enunciados em conteúdo temático, estilo e construção composicional.

Desta forma, há os gêneros discursivos primários, ou seja, cotidiano (as expressões na família, na feira, na comunidade, etc.) e, os gêneros discursivos secundários, isto é, das esferas sociais (ou atividade humana, livro didático, lei, revista científica, divulgação científica, etc.), no qual são organizadas e institucionalizadas.

Aqui vale retomar a crítica de Bakhtin a teoria literária clássica de análise cristalizada, dicionarizada e “pura” dos textos e enunciados nos gêneros literários anteriores a prosa. Bakhtin (2017b) relaciona isso ao discurso monológico, isto é, uma concentração do falante no próprio objeto de seu discurso e em sua relação com ele sem se voltar para o ouvinte, sem levar diretamente em conta os pontos de vista e apreciações dos outros (BAKHTIN, 2017b, p. 124). Contrapõem com a participação do outro, o discurso dialógico, pressupõe polifonia (muitas vozes, planos de vozes), concentrado no relativo-dialógico discursivo (palavra e contra-palavra, em movimento), focando no outro no objetivo comunicativo, luta ou polêmica, de acordo com gênero. Ou seja, uma popularização (cultura em dialogização) do que foi exclusivo de alguma ideologia de esfera social (atividade humana de acesso restrito).

Machado (2017) apresenta o enriquecimento do gênero discursivo apontando o conceito “cronotopo” (cronos: tempo; topo: tempo), em que cada texto possui o seu autor, auditório, espaço e tempo localizado historicamente, no qual dá sua caracterização cultural e histórica de sua visão de mundo.

Segundo Machado (2017) as contribuições dos gêneros discursivos têm sido válido para compreensão atual das comunicações cada vez mais dialógicas na mídia de massa, programas de TV e rádio, e as diversas formas de interação na internet com atividades humanas de relacionamentos sociais (redes sociais), marketing, comércio, educação, entre diversas aplicações.

Para além do romance na mídia de livro impresso, hoje temos as mídias audiovisuais (filmes), áudios, vídeos, cartazes, artefatos tecnológicos e plataformas interativas, as quais têm se tornado verdadeiros gêneros discursivos, ou seja, atividades sociais em que o discurso é a língua in acto. No qual pode ser percebido sua função comunicativa em “obra-enunciado”, ou seja, uma obra funciona culturalmente como réplica de um diálogo, não apenas provoca a resposta do outro como também se relaciona com outras “obras-enunciados” (MACHADO, 2017, p. 162).

Deste modo, na atividade da Divulgação Científica, para além dos textos das revistas, pode ressaltar o papel dos museus como mídia discursiva espacial. Nesse sentido, aproximamos os museus enquanto gênero discursivo historicamente situado, com o sujeito enquanto curadores e projetistas, e sua relação dialógica numa contextualização complexa para formar as obras-enunciados que pretendem dialogar com os visitantes, em uma potencialidade do grau de dialogicidade monológica/dialógica.

Enquanto gênero discursivo museológico desdobramos nossa aproximação em função das condições específicas de conteúdo temático, estilo de linguagem e construção composicional numa expressão de grau de dialogicidade (o carácter dialógico é mais evidenciado) e monologicidade (o carácter fechado a uma ideologia científica, ou outra, é evidenciado, e excluindo o diálogo popular, se tratando somente em conformar e informar).

O museu, no seu projeto comunicacional discursivo, possui a intenção inicial de comunicar (no sentido de apresentar) conteúdos ideológicos, ou de dialogar (no sentido de provocar e instigar o visitante para dialogar com o seu repertório).

A construção composicional é a base material, na qual o signo ideológico se faz sensível e inteligível na relação dialógica da obra-enunciado e o interlocutor, por meio da configuração (designer) do espaço não formal, forma de interação, forma de representação e sua forma de iniciação da experiência comunicativa (display).

O estilo pode ser visto como expressão estilística (ou pluri estilística), devido a obraenunciado propiciar variadas formas de expressão ou planos comunicativos, polifônicos, em função da construção composicional na relação por códigos, aspecto semiótico, verbais, pictóricos e/ou sinestésicos.

O conteúdo temático, ou atividade humana, visa o campo de atuação humana do qual se trata o objeto de discurso. No nosso caso é o discurso museológico.

Acreditamos ser possível fazer uma analogia do jogo de futebol como veículo de comparação e a análise discursiva museológica como alvo, uma vez que o futebol é uma atividade da esfera humana bem conhecida na cultura popular brasileira. Observe o Quadro 1.

Conceitos

Jogo de Futebol (veículo)

Discurso museológico (alvo)

Grau monológico

Alto – toque de bola entre os jogadores do próprio time

Baixo – ação de ataque e defesa em

resposta ao time adversário

Alto – obra-enunciado que só pode ser lido por especialistas

Baixo – obra-enunciado que é entendido e provoca o visitante

Construção composicional

Time: 11 jogadores titulares, jogadores reservas, equipe técnica, equipamento de jogo, posicionamento técnico e atividade tática

Equipe de responsáveis e projetitas, stakeholders (interessados), designer do espaço, artefatos museais, placas, monitores e outros equipamentos

Expressão estilística

Jogadas ensaiadas, estratégia de jogo em grupo e jogadas individuais

Expressão da informação no funcionamento coerente da construção composicional na

 

 

interação com o visitante (polifonia)

Conteúdo temático

Partida futebolística

Visita a estação de exposição científica

Objeto de discurso

Performance no jogo por meio da maior pontuação (gols)

Temática/atividade de divulgação científica

Contexto

Uma partida específica

Museu específico

Locutores/interlocutores

Time A e Time B

Obra-enunciado e visitante

Condições estáveis

Há uma cultura esportiva que mantém a modalidade esportiva futebolística

Há uma cultura científica que mantém a modalidade discursiva museal

Pontos de falhas da analogia

É uma expressão esportiva num contexto de regras lúdicas entre outros pontos de falhas

É uma expressão cultural comunicativa de contexto de difusão científica entre outros pontos de falhas

Quadro 1: Analogia do jogo de futebol e o discurso museológico. Fonte: Dos autores.

A analogia do Quadro 1 é evidenciado a intercambialidade entre o uso conceitual sobre gênero discursivo da literatura em texto verbal, ou até mídias que se expressem de forma verbo-visual (BRAIT, 2013), para mídia de espaço na sua arquitetônica.

A obra-enunciado é aqui a unidade dialogal composicional, no qual se pode interagir para expressão estilística. Essa obra-enunciado pode ter configurações diversas e que pode ser uma proposta de designer de autocondução, sem monitor com uso de tecnologia de interação, ou com o monitor; contudo, o que se busca é o dialogismo como fonte comunicativa e produtiva de conhecimento que aproxime a ideologia cotidiana da esfera da divulgação científica, e assim das contribuições da Ciência & Tecnologia.

GERAÇÕES DOS MUSEUS COMO GÊNERO DISCURSIVO

Os museus de ciências são instituições históricas originadas na Europa que se espalharam pelo mundo, desde o século XVIII. Nessa história, elementos museográficos conhecidos relacionados à função comunicativa e educativa da educação em museus (ARAGÃO, 2013) podem ser aproximados dos conceitos de gênero discursivo. Estão no Quadro 2.

Conceitos discursivos

Conceitos museográficos e educativos (ARAGÃO, 2013)

Grau monológico

Tipos de usuários/público dos artefatos/espaços

Conteúdo temático

Enfoque da exposição: ontológico, histórico, epistemológico e misto

Estilo

Códigos: verbal oral, verbal escrito, verbo-visual, pictórico, sinestésico

Construção composicional

Display: objetos, placas, monitores, mídia eletrônica

Tipo de interação: contemplação, hands-on, minds-on e hearts-on

Tipo de representação: fiel à natureza, objetividade mecânica e avaliação instruída

Quadro 2: Aproximação dos conceitos discursivos e museológicos educativos. Fonte: Dos autores.

Observamos no Quadro 2 que o grau monológico se dá pelo tipo de usuário ou público, ou seja, quando mais especializada, maior o grau. Todavia, observamos que as exposições atuais são elaboradas ao grande público, logo o grau monológico precisa ser baixo.

Na construção composicional o display, ou ação de iniciação, é relativo a análise da experiência educativa, no qual a tendência do foco está mais no display-objeto ou no displayinformação considerando a forma e conteúdo. No caso, observam-se os objetos de exposição, painel de informação 2D e 3D, e o monitor (quando ocorre).

Nos últimos anos têm sido integrado nos museus, em especial nos centros de ciências, mídias eletrônicas em que é possível interagir e simular alguns ou todos os tipos de display anteriores, com programação baseada em inteligência artificial, que adapta a experiência do usuário, seja individual, grupo ou excursão escolar (SABIESCU; CHARATZOPOULOU, 2018).

A interação com o visitante: hands-on (ou a resposta por manipulação, por exemplo, aos artefatos), minds-on (interação mental, ou questões vistas na exposição que relaciona com o cotidiano, ou com outras vivências), hearts-on (emocional, no caso dá prioridade às identidades coletivas relacionando-as com fatores culturais, fazendo-as sensível ao visitante). Outra possibilidade conhecida é a forma tradicional de interação monológica, a contemplação de artefatos.

Tipo de representação científica: fiel à natureza (objetividade, ou representações de reais e fiéis dos objetos ou fenômenos, por exemplo, os fósseis), objetividade mecânica (ou a representação do real, como fotos), avaliação instruída (a interpretação dada pelo especialista, ou sua leitura dos fatos, como narrativa de terceiro).

O conteúdo temático, ou esfera de atividade humana, se relaciona ao tipo de enfoque que a exposição se expressa e são constituídos sua composição. Segundo França, AciolyRégnier e Ferreira (2011) apresentam Montpetit (1998) a orientação de acordo com os enfoques ontológico (real, ou elementos naturais), histórico (narrativa social) e epistemológico (narrativa do discurso científico). Pode-se perceber os enfoques propostos no Quadro 3:

Enfoques

Ontológico

Histórico

Epistemológico

Objeto de apresentação

Espécie biológica

Artefatos históricos

Experiências científicas

Realidade

Natural (Coleções vivas)

Sócio-histórica da C&T

Curiosidade e a construção do conhecimento científico

Exemplos

Parques,

Zoológico e Jardins

Museus de abordagem antropológica, etnográfica, nacional e C&T

Museus de Ciências, Salas de laboratórios, anatomia, etc.

 Quadro 3: Enfoques dos programas de educação não formal em ciências. Fonte: Adaptado de França, Acioly-Régnier e Ferreira (2011, p. 3).

Considerando os aspectos apresentados no Quadro 3 podemos perceber que os enfoques possuem características diferentes dos projetos de educação. Cabe ressaltar que esses enfoques são selecionados dos objetos de apresentação visual e concreto (ontológico, como animais do zoológico) para os mais abstratos (epistemológico, como experimentos no museu de Física).

O estilo na obra-enunciado é, conforme destacamos na seção anterior, uma expressão estilística e normalmente composta por diversos planos de expressões (efeitos sonoros, verbalizações, músicas, filmes, mensagens escritas, entre outros) com várias mesclas de outros gêneros discursivos como jornalismo, charges, slogan, banners, vinhetas, etc. Assim, a narrativa, ou discurso midiático museal definido depende da composição para a relação dialógica.

Desta forma, segundo McManus (1992) e Friedman (2010) essa história é delimitada usualmente por três gerações: 1º Geração de Museus – Museus de História Natural; 2ª Geração de Museus – Museus da Indústria e Tecnologias; 3ª Geração de Museus – Centros de Ciências.

1ª Geração – Museus de História Natural

O contexto inicial foram as cabines de curiosidades europeias no século XVIII, depois os museus de história natural e, por fim, na década de 1960 e 1970 ocorre nova versão baseada em teorias de aprendizagem. No centro da mudança estava o desejo de alterar o foco das exibições de arranjos taxonômicos de objetos, para a apresentação de explicações de ideias e conceitos científicos, como evolução, sistemas ecológicos e força atômica.

A missão dos Museus de História Natural é conservar, colecionar, pesquisar, treinar e divulgar por meio das coleções científicas; e, estão presente em muitas universidades e centros de pesquisas.

A ideologia dominante é de esfera científica, ou seja, o conhecimento está associado inicialmente as disciplinas universitárias, em especial as disciplinas ligadas à história natural, como a botânica, zoologia, geologia, astronomia, mecânica newtoniana, e outras disciplinas. Hoje há exposições ligadas teorias científicas recentes, a semelhança da 3º geração.

O enunciador está associado aos pesquisadores informais, pesquisadores universitários, curadores e equipe educativa. Sendo os interlocutores inicialmente os pesquisadores, e na situação atual recebe público livre.

A obra-enunciado são focados os acervos de coleção como objeto de observação e na sua disposição taxonômica. Sendo a sua composição de representação fiel à natureza; forma de interação por contemplação e manipulação técnica de estudo e/ou pesquisa; e, display pelo Objeto (acervo).

O estilo de expressão fortemente ligada aos códigos dos textos técnicos (verbal e pictórico) e placas, e hoje esses códigos são feitos de forma a facilitar o acesso ao público.

Desta forma o enfoque de apresentação do conteúdo temático é ontológico, visto em zoológicos, museus de história natural, jardins botânicos entre outros. Colaborando para o grau monológico inicialmente alto, mas pela atualização do conhecimento esse grau tem sido menor.

2ª Geração – Museus de Tecnologia

O contexto foi inicialmente fomentado pela revolução industrial pelas grandes exposições internacionais da tecnologia e indústria nas décadas pós-guerra mundial, e depois por museus de história da indústria em segmentos tecnológicos (artefatos), como motores, máquinas e dispositivos hands-on. Foram criados muitos museus locais pela iniciativa de educação liberal. Atualmente segue no investimento da educação pública, feiras de ciências e o curador segue a taxonomia dos museus de primeira geração.

A missão é apresentar a história da tecnologia relacionada ao avanço tecnológico e sua dispersão pela indústria e mercado.

A ideologia veiculada é capitalista e de consumo dos produtos da indústria, mercado, produtos tecnológicos, relação com o cliente, e o desenvolvimentismo.

O enunciador é relativo aos curadores ligado a indústria e background acadêmico. E os interlocutores são os escolares e visitantes em geral a exposições como consumidores.

A obra-enunciado está composto por máquinas e artefatos tecnológicos numa lógica taxonômica e cronológica. Sendo a construção composicional por meio da representação em objetividade mecânica e avaliação instruída; a interação: hand-on, mind-on e a contemplação; o display por objetos, placas e monitores.

A expressão estilística é variada pela percepção verbal, verbo-visual, pictórico e sinestésico da manipulação de máquinas e artefatos tecnológicos. O conteúdo temático está no enfoque histórico. Apropriando o grau monológico baixo.

3ª Geração – Centros de Ciências

A missão dos centros de ciências é a educação pública e não a pesquisa, e comunicar com entusiasmo o progresso da C&T por meio de ideias e conceitos com exposições interativas. Há o primeiro segmento como parte da segunda geração tardia com objetos e atividade interativa, e o último com atividades interativas de conceitos, normalmente das ciências físicas.

A ideologia vinculante é voltada para a educação pública (não formal e informal), o progresso C&T, controle tecnológico, a experiência empolgante, ênfase nas ciências físicas, e nas lógicas intuitivas das mídias eletrônicas.

O enunciador desses centros são realizados por meio de projeto multidisciplinar de comunicação, ou seja, vários especialistas, engenheiros e comunicólogos. E os interlocutores são  os visitantes em geral, escolares, instituições variadas.

A obra-enunciado são mídia interativa com artefato de experiência, ou sem artefato. Sendo a construção composicional realizada pela representação na avaliação instruída e objetividade mecânica; a interação nos meios hand-on, mind-on, heart-on e diálogo; e o display em objetos, placas, monitor e mídia eletrônica.

A expressão estilística é ricamente integrada em planos comunicacionais nos códigos verbais, verbo-visuais, pictóricos e sinestésicos, em especial pela revolução midiática tecnológica possível. O conteúdo temático possui o seu enfoque epistemológico. O grau monológico é baixo.

Podemos destacar a seção no Museu Britânico do Samsung Digital Discovery para aprendizagem digital de temáticas de divulgação científica. Segundo Sabiescu e Charatzopoulou (2018) é constituído por inteligência artificial em que uma série de mídias eletrônicas apresentam várias temáticas desde as pirâmides do Egito até temas de ciências avançadas, no qual o seu algoritmo se adapta e calcula a melhor narrativa e interação ao visitante, sendo este individual, em grupo (família) ou excursões escolares vinculada ao currículo nacional.

Essa linha histórica se remonta com o conceito de cronotopo, no espaço e tempo a produção de divulgação científica, apesar de adaptar, é claramente marcada pela ideologia da cultura e contexto histórico nas condições materiais sociais, históricas e econômicas.  Sendo o destaque para ideologia científica influenciada pelo modernismo na primeira geração (o ideal enciclopédico), a ideologia industrial da produção e capitalismo de produtos manufaturados na segunda geração, e o capitalismo de cultura de massa do hipermodernismo atual. Fazemos no Quadro 4 uma síntese da evolução histórica.

 

Gêneros Discursivos

Cronotopo

Ideologia científica

Ideologia Industrial

Ideologia das mídias

Hipermode rnidade

Discurso

Categorias

Conceitos

1ª Geração

2ª Geração

3ª Geração

3ª G(tardia)

Grau monológico

Dialogicidade

Alto

X

X

 

 

Baixo

 

X

X

X

Tema

Enfoques

Ontológico

X

 

 

 

Histórico

 

X

 

 

Epistemológico

 

 

X

X

Estilo

Expressões

Verbal

X

X

X

X

Verbal-Visual

X

X

X

X

Pictórico

X

X

X

X

Sinestésico

 

X

X

X

Construção

Composicional

Display

Mídia eletrônica

 

 

X

X

Monitores

X

X

X

X

Placas

X

X

X

X

Objetos

X

X

X

X

Interação

Herd-on

 

 

X

X

Mind-on

 

X

X

X

Hand-on

X

X

X

X

Contemplação

X

X

 

 

 

Representação

Fiel a natureza

X

 

 

 

Objetividade mecânica

X

X

X

X

Avaliação instruída

 

X

X

X

Quadro 4: Síntese da aproximação das gerações de museus como gêneros discursivos. Fonte: Dos autores.

A principal diferença percebida está no conteúdo temático que mudou na evolução histórica de enfoque ontológico para epistemológico. Também na construção composicional promovem tendências em relação aos tipos de representação propende à virtualização, a interação modifica da contemplação para formas hearts-on e o display baseado em objetos (artefatos físicos) para mídias eletrônicas. Tudo isso impacta a estilística em polifonia, pluri estilística e variadas expressões na comunicação do tema.

Nosso limite de aproximação é a análise de exposições concretas, no qual, ao olhar do analista do discurso, necessitará ver muitas nuances de características de uma geração presente na atualização em museus de outra geração. Segundo Cazzelli et al (2003) informam que no Brasil, por exemplo, há predomínio de museus de primeira geração com elementos das outras gerações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entendemos que as gerações de museus (1ª, 2ª e 3ª) podem ser caracterizados por meio de gêneros discursivos distintos do discurso museológico. Logo, o exercício da compreensão discursiva é possível mediante análise dos signos ideológicos em função dos grupos socioculturais.

Este ensaio buscou fazer uma aproximação do conceito heurístico de gêneros discursivos de Bakhtin com conceitos da análise museológica de comunicação. Acreditamos que o nosso empreendimento foi exitoso, contudo, a vida como fonte das expressões enunciativas são altamente complexas, e cada enunciado para ser compreendido, necessita ser total, e isso implica que cada obra-enunciado é visto no contexto imediato da exposição e, por seguinte, no contexto cultural da ideologia da divulgação científica e da ideologia cotidiana em que cada tipo de público constroem diálogos diferenciados e não repetíveis.

Acreditamos que outras pesquisas podem ser incrementadas na utilização desse esquema inicial de pesquisa comunicativa, a partir do dialogismo entre discurso midiático museológico.

Agradecimentos: Registramos o nosso agradecimento a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal em Ensino Superior (CAPES) pelo apoio financeiro por meio da bolsa de estudos. S.D.g.

REFERÊNCIAS

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BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: ______. Os gêneros do discurso. São Paulo: Editora 34, 2017a (1ª ed. 2016). p. 11-70.

______. Diálogo I. A questão do discurso dialógico. In: ______. Os gêneros do discurso. São Paulo: Editora 34, 2017b (1ª ed. 2016). p. 113-124.

BRAIT, B. Olhar e ler: verbo-visualidade em perspectiva dialógica. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, v. 8, n. 2, p. 43- 66 / Eng. 42–64, 29 nov. 2013. Disponível em: <https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/16568>. Acesso em: 16 jun. 2018.

______.; MELO, R. Enunciado/enunciado concreto/enunciação. In: BRAIT, B. (Org.). Bakhtin: conceitos-chaves. 5. ed. São Paulo: Contexto, 2017. p. 61-78.

CAZELLI, S.; MARANDINO, M.; STUDART, D. C. Educação e Comunicação em Museus de Ciências: aspectos históricos, pesquisa e prática. In: GOUVÊA, G.; MARANDINO, M.; LEAL, M. C. (Ed.). Educação e Museu: a construção social do caráter educativo dos museus de ciências. Rio de Janeiro: Access/Faperj, 2003. p. 83–106.

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