UMA ANÁLISE COMUNICACIONAL MEDIADA PELO DISCURSO MIDIÁTICO DA EXPOSIÇÃO: DIMENSÃO VERBAL E NÃO VERBAL[1]

A COMMUNICATION ANALYSIS MEASURED BY THE EXHIBITION’S MIDI SPEECH: VERBAL AND NON-VERBAL DIMENSION

Saulo Cézar Seiffert-Santos[2]

Lorraine Mori[3]

Márcia Borin da Cunha[4]

OBSERVAÇÃO: Trabalho apresentado no Simpósio de Educação em Ciências na Amazônia. Escola Normal Superior. Universidade do Estado do Amazonas. Manaus, 04 de outubro de 2018. Anais em: https://secam.com.br/anais/secam-2018-anais/

Resumo: A pesquisa em espaço de educação não formal em ciências normalmente é feita por abordagem educativa e comunicacional ou por ambas. O estudo do espaço pode ser visto como discurso midiático (meio) para alcançar metas de alfabetização/letramento científico. Nesse artigo, o objetivo é fazer uma tessitura inicial de análise do espaço de educação não formal e dos artefatos para investigação científica em educação em ciências considerando uma abordagem de comunicação verbal e não verbal. Para isso, utilizamos a proposta dos três "I" de planejamento de artefatos, baseada na prática do usuário e respaldada nas teorias de Herman Dooyeweerd, das estruturas de individualidade e aspectos modais da realidade para análise do ambiente de exposição científica. Para os artefatos de comunicação museal utilizamos a teoria de análise não verbal persuasiva de Beth Brait. A partir dessa proposta foi possível perceber que há elementos explícitos e implícitos nos aspectos modais que influenciam a comunicação nas suas dimensões (discursos) verbal e não verbal. Além disso, a comunicação ideológica da exposição, enquanto design das estações de visitas, pode dialogar ou impor o seu discurso ideológico, bem como a necessidade de conhecer o perfil ideológico do público da visita para a promoção da alfabetização/letramento científico.

 

Palavras-chave: Divulgação científica, educação não formal, análise de discurso

Abstract:  Research in non-formal education space in sciences is usually done through an educational, communicational approach, or both. The study of space can be seen as mediatic discourse (means) to reach goals of scientific literacy. Our aim is to make an initial analysis of the space of non-formal education in sciences and of the artifacts for scientific investigation in science education in the approach of verbal and non-verbal communication. In order to do this, we use the proposal of the three of artifact planning based on the I's practice, based on Herman Dooyeweerd's theories of individuality structures, modal aspects of reality and scientific exhibition; for museum communication artifacts we use BethBrait’s non-verbal persuasive analysis theory. We can see that there are explicit and implicit elements in the modal aspects in which they influence communication in their verbal and nonverbal dimensions. Likewise, the ideological communication of the exhibition, as design of the visiting stations, can dialogue or impose their discourse ideological, as well as the need to know the ideological profile of the visiting public to promote literacy.

 

Keywords: Scientific population, non-formal education, discourse analysis

Introdução

A pesquisa em espaços não formais de educação em ciências tem crescido no Brasil e conquistado novas abordagens de investigação. Segundo Marandino (2007), as principais abordagens de investigação estão no campo da educação e da comunicação, apesar de que muitas dessas abordagens se interpenetrem e se influenciem mutualmente.

Esses espaços podem ser entendidos como ambientes que não pertence às escolas, podendo esse ser institucionalizados, pertencentes a uma organização, como o caso dos centros de ciência e dos museus e seus congêneres − como zoológico, jardim botânico, entre outros −, ou não institucionalizados, como praças, parques e ambientes abertos ao público (JACOBUCCI, 2008).

Por outro lado, há uma preocupação em conhecer os espaços não formais de educação quanto à sua potencialidade educativa, entendendo-se que não devem ser reducionistas em relação aos componentes curriculares escolares e que sejam atrativos aos visitantes não escolares (JACOBUCCI, 2008) para a promoção da alfabetização/letramento científico. Nessa acepção, é importante que a própria análise desses espaços não seja reducionista, ou seja, que não intente focar a exposição com mero objetivo cognitivo empirista, mas que leve em consideração elementos da cultura científica e da cultura do cotidiano (HEIN, 2006; NATIONAL COUNCIL RESEARCH, 2009).

Para isso, nosso procedimento neste estudo foi ensaístico. Utilizamos as teorias das estruturas de individualidade e dos aspectos modais da realidade de Dooyeweerd (1969), bem como a teoria do signo ideológico, de Volochinov e Bakhtin (1981), mais a teoria do enunciado em Bakhtin (2017). Para a análise do espaço e dos artefatos culturais utilizamos a análise de discurso persuasivo não verbal de Brait (1995). O nosso objetivo consistiu em fazer uma tessitura inicial para uma proposta analítica do espaço de educação não formal em ciências e dos artefatos para investigação científica em educação em ciências na abordagem de comunicação verbal e não verbal.

Tópicos teóricos-filosóficos

O espaço educativo para propósito de atividade relacional de aprendizagem se apresenta como uma realidade complexa e multifacetada, portanto com possibilidade de variadas leituras teóricas. Nessa missão, destacamos inicialmente as contribuições do filósofo holandês Herman Dooyeweerd (1884-1977).

Dooyeweerd (1969) postulou a Filosofia da Ideia Cosmonômica, em que destacamos duas teorias: os aspectos modais da realidade e as estruturas de individualidade. A primeira entende que toda realidade se fundamenta ontologicamente no “significado” e, dessa forma, todo ser possui camadas discursivas de sentido (significado) interdependentes, contudo não reduzíveis entre si. Apresentamos esses aspectos do modo de ser (modais) organizados em aspecto modal, significado nuclear e ciência associada: 1) quantitativo, quantidade numérica, álgebra e aritmética; 2) espacial, expansão contínua, geometria; 3) cinético, movimento constante, dinâmica; 4) físico, energia/matéria, física relativística; 5) biótica, vida orgânica, biologia; 6) sensível, sensação/emoção, psicologia; 7) analítico, distinção/análise, lógica; 8) histórica, poder formativo/cultural, história e cultura; 9) lingual, simbólico, semiótica; 10) social, relacionamento social, sociologia; 11) econômico, frugal/parcimônia, economia; 12) estético, harmonia/beleza, estética; 13) jurídico, retribuição, direito; 14) ético, amor/fidelidade, moral; 15) pístico, fé/certeza, teologia.

A teoria das estruturas de individualidade complementa a teoria anterior, pois com ela se entende que cada entidade, ser, portador de significado, possui uma estrutura de individualidade com o seu significado diferenciado em cada aspecto modal; possui, contudo, a sua própria estrutura ou a sua própria coerência, que responde aos outros aspectos modais. Essa estrutura de sentido próprio foi denominada de "idionomia" e possui uma função-guia em um aspecto (função principal ou líder) que governa o seu sentido entre os outros aspectos modais para o seu funcionamento como sujeito e/ou como objeto. Por exemplo, um cão possui sua função-guia no aspecto sensível, por possuir sistema nervoso, há sensações, logo funciona como sujeito nos aspectos de quantidade, espacial, cinética, energia e biótica, todavia como objeto para o homem nos outros aspectos modais.

Nesse sentido, as relações entre as entidades (estruturas de individualidade) são de parte-todo ou de "encapse". Esta última, a relação de encapse, é o entrelaçamento entre idionomias que são preservadas, mas, pela encapse, se tornam outra estrutura de individualidade, portanto ocorrem novas características, vale dizer, novos significados. As encapses podem ser dos tipos fundante irreversível (tecidos e órgãos), simbiótico (bactérias e fungos nos líquens), sujeito-objeto (caranguejo e concha) e correlativo (elementos de um ambiente, bióticos e abióticos, ou um poema num papel, tinta e código).

Dooyeweerd entende que cada aspecto possui sua lei (significado) em que cada entidade (idionomia) também possui seu significado (lei) que responde aos aspectos modais. E, por isso, para o funcionamento produtivo e correto entende um princípio que cunhou como "Shalom" (paz). Com esse princípio se observa, na realidade, o funcionamento de cada significado, e assim cada artefato ou projeto humano deve observar para fazer um funcionamento harmônico e/ou buscar a melhor configuração que respeite essas leis, em todos os aspectos modais. Exemplificamos esse princípio mencionando o desenvolvimento de um aparelho telefônico celular, processo em que se observam quantidades, componentes, rede de comunicação, mercado, mas se podem deixar as consequências ecológicas negligenciadas (aspectos econômico e ético).

A partir dessa forma de ler o mundo, necessita-se especificar que o fenômeno da “comunicação” se refere ao aspecto lingual, mas ocorre entre pessoas (aspecto social), uma vez que não há aspecto social sem a interação dos aspectos analítico, lingual (simbólico) e histórico (cultural), pois são plasmados e interdependentes. Assim, há que se compreender que, nas relações sociais, cada ser humano possui a sua idionomia, a partir da qual atribui/assimila significados distintos em cada aspecto modal no que Dooyeweerd denomina "horizonte plástico da experiência humana" (ou seja, a nossa formação cultural no tempo).

Relacionamos essa compreensão anterior de comunicação ao compartilhamento dos signos ideológicos, ou seja, às unidades que formam as ideologias (significados socialmente compartilhados); inicialmente isso ocorre pela esfera cotidiana para aprendizagem e vivência na vida (significados familiares, comunitários, etc.) e, depois, pelas esferas sociais específicas (significados de esferas sociais determinadas, como a científica, a divulgação científica, a escolar, a estatal, a religiosa, etc.), que buscam a sua autorreprodução para influenciarem na transformação ou na manutenção da infraestrutura para superestrutura (VOLOCHINOV; BAKHTIN, 1981).

Possibilidades de análise de espaço não formal científico

A mediação cultural é plasmada nos aspectos lógico, lingual e cultural por meio da ação comunicativa. Logo, uma exposição comunicativa possui a sua estrutura de individualidade em encapse correlativa. Dessa forma, o projeto de dizer em uma exposição leva em consideração a forma objetiva da estrutura de individualidade na função-guia no aspecto ético, ou seja, educativa por intensão moral. O tipo de interação entre o visitante e a exposição de forma a experimentar subjetivamente, ou seja, o projeto de dizer (discursivo) visa a perspectiva do usuário (praticantes).

O foco da análise comunicativa se direciona à subjetividade, baseando-se no usuário. A razão disso é que a interação do usuário/visitante com a exposição está associada à mediação, e assim a exposição pode ser vista como dispositivo midiático como um todo para comunicar um discurso (DAVALLON, 2011). Logo, a exposição é uma forma de mídia de discurso da divulgação científica, − discurso que comunica ou dialoga com os visitantes.

Em uma abordagem complementar para perceber essa individualidade do espaço, Dooyeweerd e Knudsen (1954) denominaram o espaço humano e suas interações de Umwelt, um milieu-vivo, no mesmo sentido de ecologia para as interações/relações no espaço biológico. Isso é uma analogia de antecipação de significado do aspecto biológico para o social. No mesmo raciocínio, dentro do Umwelt haverá as relações humanas produtoras de cultura, discurso, tecnologia e ação nas outras esferas de superstratos nos espaços. Perspectiva semelhante encontramos na proposta de pesquisa em ciências sociais arquitetada por Bell (2002), que cunha o termo "ecologia cultural". Quanto a essa perspectiva, Sabiescu e Charatzopoulou (2018) a entendem como análise, na perspectiva ecológica, em ambientes socioculturais, olhando o museu como ecologia humana, com processos ecológicos atrelados à estratégia de aprendizagem digital e análise de ecologia comunicativa na experiência vivida do sujeito – estratégia e análise estudadas nas dimensões cultural, discursiva e tecnológica.

Nesse sentido, a exposição como Umwelt é tomada como um dispositivo midiático no qual há uma estrutura de individualidade enquanto composição cultural, como conceito de exposição (encapse propiciando vários extratos discursivos da realidade na exposição).

Por essa razão, podemos observar intenções ideológicas na interação com o espaço. Em uma primeira relação dialógica, a comunicação discursiva para desenvolvimento da ideologia das esferas sociais e, dessa forma, uma ideologia dominante para a submissão e a reprodução das estruturas sociais; na segunda relação dialógica, a comunicação discursiva pode desenvolver um diálogo entre as ideologias cotidianas e as das esferas sociais, logo com temas que problematizam situações contemporâneas com objetivos de infundir ação comunicativa para influenciar o cotidiano; e, por fim, em terceira relação dialógica, diálogo das ideologias cotidianas, de modo a não direcionar propositalmente para uma ideologia de esfera social especializada, mas propiciar um diálogo dos acontecimentos cotidianos na esfera cultural local.

Ponderamos que a divulgação científica realizada nos espaços de educação não formal não é ciência, mas também não é cultura pura, pois o seu objeto de discurso científico é determinado materialmente. Logo, a divulgação científica é o encontro do discurso da ciência com o discurso da cultura para a formação do discurso da divulgação científica (VOGT; MORALES, 2018), no espaço de educação não formal em ciências. Por outro lado, ciência e cultura estão em um mundo humano, um mundo no qual a dinâmica capitalista tem animado muitos dos projetos e dos empreendimentos. Assim, a divulgação científica se aproxima em similaridade com a cultura de massa:

[...] ela constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária, um sistema de projeções e de identificações. Ela acrescenta à cultura racional, à cultura humanista, à cultura religiosa, e entra em concorrência com outras culturas. (MORIN, 2009, p. 15, 16).

Logo, o discurso da exposição científica é influenciado pelas condições materiais, sociais e ideológicos, e, desse modo, as influências culturais ocorrem em função dos grupos sociais que dialogam e são enriquecidos culturalmente.

Adaptação do Modelo do Triplo “I” para a análise de espaço não formal

Para relacionar as duas teorias de Dooyeweerd, a estrutura de individualidade e os aspectos modais, na exposição, ou seja, a produção da comunicação discursiva e ideológica para a interação cultural, ou abertura/enriquecimento cultural, integram-se duas análises: A − o espaço (exposição ou estação de visita específica); e B − a análise de artefato cultural específico. Para a primeira, sobre a exposição, propomos adaptar o Modelo do Triplo “I” de Verkerk (2014), de análise de projetos de engenharia e tecnologia.

Para Verkerk (2014), todo projeto de produção de artefato cultural é baseado na prática do usuário e, assim, o projetista leva em consideração três áreas de ação denominadas com a letra “I”, ou seja: o primeiro “I” é o de Identidade e valores intrínsecos do usuário (relacionado às ideologias cotidianas); o segundo “I” é o de Inclusão das partes Interessadas − stakeholders (ligado às ideologias específicas); e o terceiro “I” é o das Ideias, sonhos e valores (integração das ideologias anteriores).

O primeiro “I”, sobre identificação e valores do usuário, leva em consideração o contexto do usuário/visitante que se utilizará da exposição. Podemos ver essa preocupação em McManus (1992) e em Friedman (2010) em evidenciar o contexto da primeira geração de museus de ciências (história natural), contexto esse que foi para estudos e contemplação de colecionadores/convidados e para armazenamento de coleções; a segunda geração de museus (museus de tecnologia), com finalidade de atrair visitantes para propiciar cursos e saberes técnicos com motivação comercial, museus nos quais a contemplação é ainda a ênfase de interação predominante; e a terceira geração (centros de ciências), com finalidade educativa e lúdica de apresentação de fenômenos científicos por meio da interação. Na primeira e na segunda geração, a tendência é divulgar a ideologia de grupos científicos, tecnológicos e industriais. Na terceira geração há um diálogo com ideologias cotidianas, sendo que no contexto brasileiro há predomínio dos museus de segunda geração com elementos de primeira e terceira geração (CAZZELLI; MARANDINO; STUDART, 2003).

De forma geral, há exposições em que a função-guia no aspecto ético da mostra para reprodução de ideologia da esfera social-científica pode reforçar a lógica e linguagem científica (ideologia da esfera social) ou motivo-base na linguagem de Dooyeweerd, da natureza (materialismo) e liberdade (humanismo), em especial a filosofia naturalista com discurso triunfalista do homem sobre a natureza, e o mito da autonomia humana sobre a natureza em geral (DOOYEWEERD, 1969). Por isso, a encapse correlativa da exposição, enquanto dispositivo discursivo, condensa no foco da contemplação dos artefatos culturais, textos de divulgação científica com ênfase na linguagem técnica e perfil conceitual de exposição de evolução das estações, indicando a ideia mítica de dominação absoluta humana (tecnocentrista). Aqui a identidade e valores do usuário são conduzidos à função-guia no aspecto ético-educador em comunicar uma "verdade" para ser aceita pelo visitante. Nesse sentido, o Modelo do Triplo I sugere que muitos usuários preferem interagir e a mera abstração é rejeitada, necessitando estabelecer relações com elementos de ideologia cotidiana.

O segundo “I”, o da inclusão dos interessados − stakeholders, consiste na associação de recursos financeiros, físicos, técnicos e humanos. É uma área importante. Além dos recursos, também oferece apoio técnico relacionado às informações específicas e à construção/montagem dos artefatos culturais e organização do ambiente (conhecimento técnico especializado). Isso influi e reflete no projeto para a mensagem ou para as condições na produção da mensagem (discurso). Essa associação inclui tanto como patrocinadores, projetistas, comissão técnica, profissionais da construção/elaboração/montagem dos artefatos e do espaço, profissionais da manutenção, organizadores e responsáveis pela exposição. Seus interesses não são percebidos como contraditórios, mas complementares, como interesses justificados no projeto. Esses interessados passam a ficar associados por meio da função-guia do projeto. Como o museu de ciências possui sua função-guia no aspecto moral, logo pode associar-se com o governo e/ou com empresas ligadas à educação e à ciência, bem como pode relacionar a sua marca ou apoio técnico-científico ou, até, financeiro.

Por fim, o terceiro “I”, o das ideias, trata dos sonhos e dos valores agregados por parte do projetista, ou seja, trata da ideia de proporcionar, com o projeto, melhoria das condições de vida, cultura e valores. Nesse caso, esse parâmetro se relaciona com as ideologias nas quais se pauta a cultura mais geral. No caso, a ideologia de natureza e de liberdade do modernismo ainda está presente, e muito levantada nas temáticas científicas, em especial na sua versão pós-moderna e no sincretismo entre valores seculares com os valores cristãos.

Nessa lógica, a análise desse complexo pode ser integrada no princípio "Shalom", sendo uma possível ferramenta crítica para analisar multiaspectalmente (aspectos modais) os artefatos culturais nas várias fases do projeto museológico.

Até aqui tratamos da análise do espaço, mas é necessária a análise do artefato cultural, com enfoque comunicativo. Na análise comunicativa do artefato cultural, podemos sugerir a análise de discurso persuasivo não verbal (BRAIT, 1995), que podemos sintetizar como: (a) construção da imagem (toda imagem possui um enunciador que realiza a composição ou construção com propósito comunicativo, alguém que comunica) e (b) análise retórico-argumentativa, por meio do discernimento da tese (argumento), da forma de apresentação (imagem) e do seu conteúdo. O artefato cultural realiza, então, um discurso imagético quanto ao que se apreende dos elementos de destaque na imagem/texto, no conteúdo ideológico, no argumento (construção imagética persuasiva) e na intencionalidade.

O discurso visual se dá por valores explícitos ou implícitos para convencer o enunciatário, ou seja, uma tática enunciativa para obter adesão ao conteúdo pressuposto, na comparação dos elementos semiológicos como paradigma ideológico e, por analogia, estabeleça sentido ou usufrua por via subconsciente (BRAIT, 1995).

Nas mostras científicas normalmente o artefato cultural é acompanhado por placa informativa (texto de divulgação científica), tornando-se uma comunicação verbo-visual. Entendendo a dialogicidade do enunciado verbo-visual ou o significado dado pela construção imagética, artefato cultural, no sentido na dimensão verbo-visual no tipo ilustração (texto e imagem), podemos perceber dois discursos (verbal anterior à imagem ou imagem anterior ao verbal), que são impregnados do sentido verbal ou, ao contrário, para fazer uma explicação expandida com o visual, podendo dialogar com os conceitos da análise de Mikhail Bakhtin − inacabamento, respondibilidade, exterioridade, alteridade e relações dialógicas do tipo não polêmico (BRAIT, 2013).

Essas estratégias de análise são aplicadas ao nível de gênero discursivo da literatura (BAKHTIN, 2017), propaganda e canais de comunicação usuais. Ao nosso entender, podemos adaptá-lo ao contexto de exposição científica.

Análise de um exemplo hipotético de espaço e de um pôster

Um exemplo inicial pode ser uma mostra (Umwelt) de caixas entomológicas de artrópodes. A estação de visita possui um sentido de observação e diálogo sobre esses seres singulares. Nessa estação hipotética pode possuir uma sequência de dez caixas entomológicas de grupos distintos de artrópodes presos na parede, dispostas em ordem de características morfológicas visíveis e organizada por critérios de habitat desses seres, com a presença de textos de divulgação científica − TDC para apresenta-los (conteúdo biológico, ambiental e de conservação), e placas indicativas numa sala coberta e com proteção do intemperismo aos visitantes e aos artefatos (a elaboração e montagem da mostra – relativo ao segundo “I” de Verkerke).

 As estruturas de unidades que analisamos foram: casa (abrigo), caixas entomológicas, textos de divulgação científica. A cultura que interage é a cultura da divulgação biológica relacionada a uma intenção de educação ambiental conservacionista (ideologia da exposição e dos interessados – relativo ao terceiro “I”). A cultura de interação seria institucional, ou seja, podemos “hipotetizar” uns visitantes escolares dos anos finais do ensino fundamental (diálogo com a ideologia dos visitantes – relativo ao primeiro “I”). Assim, apresentamos o Quadro 1 com essas estruturas de individualidades encápticas (caixas e textos de divulgação) em função dos aspectos modais na relação da busca do princípio "Shalom" (harmonia e coerência), que se correspondem para formar o significado da estação de visita.

Quadro 1: Quadro hipotético de significado multiaspectal dos artefatos e estação de visita de artrópodes.

Aspectos Modais

Caixa entomológica

Texto de Divulgação Científica

Estação de visita

Quantitativo

10 caixas

10 textos

Local mensurável para observação e diálogo

Espacial

Uso do espaço (10x30x40 cm) por caixa

Espaço de papel A4

Distribuição no espaço das caixas e para a locomoção dos visitantes

Físico

Caixas são físicas e móveis

Papel impresso (laser)

Ambiente de alvenaria, seco e arejado

Cinético

Somente precisa de local físico de fixação

Local físico de fixação próxima à caixa devida

Ambiente iluminado com luz natural e energia elétrica

Biótico

Os artrópodes fixados nas caixas preservados

Celulose do papel

Ambiente limpo sem traças ou insetos que consumam o material das caixas e textos

Sensível

Sensação de segurança da caixa e de percepção

Sensação/emoção em função da informação pela impressão

Ambiente acolhedor que estimule a percepção dos artefatos

Analítico

Organização por táxons e estruturas morfológicas

Lógica do código escrito

Organização das caixas e textos em disposição instigante

Cultural/ Formativo

Controle do conteúdo morfológico dos seres vivos

Controle ideológico linguístico da leitura

Controle dos artefatos, do conteúdo biológico, ambiental e relação moral

Lingual

Disposição e marcação dos organismos na caixa (possíveis placas de identificação)

Língua portuguesa em estilo de informativo científico

Design do ambiente, textos em língua portuguesa (e outros idiomas) e placas

Social

Influência do comportamento (medo, nojo, beleza)

Influência do comportamento pela informação

Conduz a uma conduta de conservação pela interação interpessoal

Econômico

São organismos raros ou comuns

Custo econômico de produção do texto

Propicia uma experiência única /especial. Outro momento há a relação de preço de ingresso

Estético

Organização harmônica dos organismos no conjunto das caixas. Desperta vivacidade

Texto organizado e coeso no sentido da forma dos códigos e/ou do conteúdo. Desperta vivacidade, ou não

Ambiente organizado em simetria e coerente com as disposições dos artefatos/ visitantes. Inspira vivacidade

Jurídico

Responsabilidade: propriedade e direito em relação às caixas e seu conteúdo

Responsabilidade: proprie-dade e direito em relação aos conteúdos dos textos (propriedade intelectual)

Ambiente respaldado com cuidado e responsabilidade a interação dos visitantes e artefatos

Ético

Cuidado com as caixas de artrópodes e sua conservação

Cuidado com os conteúdos e manutenção dos textos e sua conservação

Ambiente educativo e de encorajamento científico e moral

Pístico

Confiança na observa-ção do conhecimento científico e ambiental sobre os artrópodes

Confiança na comunicação do conhecimento científico e ambiental sobre os artrópodes

Confiança na experiência social com o conhecimento científico e ambiental para uma humanização

Fonte: Dos autores.

Podemos sintetizar os dados do Quadro 1 em uma construção do discurso sobre a exposição feito pelos pesquisadores sobre a contribuição de cada aspecto modal: essa sala de visita de artrópodes possui um número mensurável para observação e diálogo; a distribuição positiva do espaço das caixas/textos e distância para locomoção dos visitantes; a construção de alvenaria, seco e arejado; é iluminado com luz natural e energia elétrica; está limpo sem traças ou insetos que consumam o material das caixas/textos, sendo acolhedor que estimule a percepção dos artefatos; a organização das caixas e textos em disposição instigante aos visitantes; um discurso que propicia o controle do conteúdo biológico e ambiental em função de valores morais; também propicia a leitura, por meio do design do espaço, textos em língua portuguesa (e outros idiomas) e placas; a mensagem conduz a uma conduta de conservação pela interação; possibilita uma experiência única/especial, e/ou outro momento pode ocorrer cobrança pelo ingresso; o design é organizado simetricamente e coerente dos artefatos, inspirando a vivacidade; há o respaldo com a preparação de cuidado e responsabilidade pelos visitantes na sua segurança e experiência; sendo educativo e encorajador para conhecimento científico; e, a confiança no conhecimento científico e ambiental contribui para humanização dos visitantes.

Resumimos como um ambiente de diálogo com as ideologias de divulgação conservacionista e humanista ambiental tende a apresentar um discurso estruturado e conceitual do domínio científico com pouca interação com a ideologia cotidiana. Mesmo assim, contudo, a estrutura e a sensibilidade propiciada pelo espaço podem proporcionar sensações de conforto e ideias tácitas que conformam e consolidam culturalmente o ideal moral (imaginário) pelas expressões dos artefatos nos aspectos modais que não são necessariamente informativos (estética, sensação de segurança, linguagem acessível à compreensão, mas não ao domínio, etc.). Essa sutileza é discursiva e se expressa especialmente nos outros aspectos, e não somente no conteúdo explícito do discurso.

Por outro lado, em relação aos artefatos culturais, eles são passiveis de análise individualizada da sua mensagem/discurso. A título de apresentação sobre análise de discurso persuasivo não verbal de um artefato de mostra científica, podemos apresentar um pôster, como o da Figura 1.

Figura 1: Pôster sobre a comparação entre inseto com aracnídeos. Fonte: https://goo.gl/698EMY. Acessado em: 1º jul. 2018.

A construção da imagem possui como enunciador o Setor de Multimeios da Secretaria Estadual de Educação do Paraná. O enunciador é, portanto, uma organização de caráter educativo voltada para ensino formal e a produção de conteúdo.

Para a análise há o argumento da diferença entre aracnídeo e inseto, com apresentação integrada de imagem (desenho) e texto (informativo) e com o conteúdo com distinção em três campos (1) divisões do “corpo”, (2) “características distintas” em pedipalpos e quelíceras para aracnídeos e asas para insetos, e (3) quantidade de “patas”. O discurso verbal é subordinado ao discurso imagético (apesar de equilibrado o visual e o verbal). Nesse exemplo (Figura 1), com apresentação de fundo de um recorte de um campo gramado (com brilho dégradé permitindo que parte da imagem seja mais opaca) com sobreposição ilustrativa de uma aranha e uma barata (sem reconhecimento das espécies pelo nome científico), aparentando relativamente uma relação de predação; o conteúdo ideológico é de base científica na biologia, especificamente na morfologia dos artrópodes, apresentando distinções morfológicas para defender a tese que está no título: “Aracnídeos x Insetos: aranha não é inseto... conheça algumas das características que diferenciam estes dois grupos” − argumento que compõe uma construção imagética persuasiva, e intencional.

A composição dos discursos verbal e visual, numa encapse na função-guia de aspecto lingual, tem por finalidade a comunicação educativa, entrelaçado a linguagem visual e verbal numa mensagem/argumento. Nessa mensagem/argumento, os elementos visuais destacam graficamente (esquemas nos círculos) características morfológicas dos organismos e o texto permite a clareza dos termos e a indicação morfológica da estrutura corporal em sequência, permitindo a organização e a comparação dos conteúdos.

Partindo do pressuposto de que, na ideologia do cotidiano, haja confusão entre aracnídeo e inseto, a facilitação ou a aproximação da ideologia da esfera da divulgação científica com a ideologia do cotidiano foi realizada mediante a utilização de um sistema gráfico-verbal simples de comparação para apresentar termos gerais e específicos ilustrados pelas representações das estruturas morfológicas.

Por fim, esse diálogo das ideologias cotidianas e divulgação científica tende a conter tensões causadas pelas ideias previamente internalizadas e apropriadas acriticamente, presentes no discurso interior, tais como nojo, medo e sensação de desconforto das imagens dos artrópodes. Essas ideias de repulsa ao material proposto são decorrentes de experiências do cotidiano e/ou de mensagens negativas da mídia de massa.

Dessa maneira, a análise holística depende da análise de cada artefato integrado na mostra (espaço de educação não formal científica) para a conformação do significado da encapse da exposição em que o todo possui potencialidade de provocar experiências que superam a soma dos artefatos. Isso indica que a experiência cultural nas exposições pode ter efeitos variados nos visitantes na sua relação com os artefatos e como dialogam (na atitude interrogativa) com um conjunto específico, ou com todos eles, em função do olhar em relação ao aspecto modal guia desses artefatos e do horizonte plástico da experiência humana.

Considerações finais

Está então apresentada uma leitura de proposta conceitual sobre a potencialidade comunicativa de exposição científica para o possível processo de alfabetização/letramento científico. Essa potencialidade comunicativa, no diálogo com a cultura científica, segundo o acima exposto, é realizável. Trata-se, porém, de processo complexo e rico nas suas interações com os vários aspectos da realidade, mediado pela interpretação do espaço museal, por meio da função-guia, na teoria das estruturas de individualidade e dos aspectos modais da realidade.

Primeiramente entendemos a necessidade de desenvolver uma efetiva compreensão do que seja o diálogo cultural (abertura cultural) por meio da idionomia humana no horizonte plástico da experiência humana junto às ideologias do cotidiano e da esfera científica.

A análise comunicacional mediante discurso midiático ideológico da exposição (Umwelt) adaptada do Modelo Triplo I, com o equilíbrio das fases do projeto comunicativo com o princípio "Shalom", revela as possíveis influências dos aspectos que expressam seu sentido/significado de forma explícita e implícita.

A análise de discurso persuasivo não verbal colabora para o entendimento do significado expresso no artefato cultural, que normalmente é acompanhado pelo conteúdo verbal, formando dois discursos (o verbal e o não verbal), sendo um impregnado no outro e vice-versa, com enunciador, argumento, conteúdo e intencionalidade. Dessa forma, as dimensões verbal e não verbal são necessárias para a construção do sentindo e do significado em interação com as ideologias do visitante e as ideologias desenvolvidas na exposição e nos artefatos.

Devido a essa complexidade e riqueza nas exposições científicas, entendemos a necessidade de novas pesquisas em análise de discurso. Necessita-se de novas pesquisas que, além da perspectiva cognitivista e empirista do conhecimento envolvida nos discursos das exposições científicas, relacionem também as ideologias aos aspectos importantes da realidade na sua inteireza e concretude.

 

Agradecimentos: Registramos agradecimento à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal em Ensino Superior – Capes pelo apoio financeiro por meio da bolsa de estudos. S.D.g.

REFERÊNCIAS

BELL, G. Making sense of museums: the museum as ‘cultural ecology’. Intel Labs
Cannon-Brookes P (1992). The nature of museum collections. In: THOMPSON, J. M. A. (Ed). Manual of curatorship. Boston: Butterworth-Heinemann, 2002. p. 500-512.

BAKHTIN, M. M. Os gêneros do discurso. In: BEZERRA, P. (Ed.). Os gêneros do discurso. São Paulo: Editora 34, 2017. p. 11-70.

BRAIT, B. A construção do sentido: um exemplo fotográfico persuasivo. Língua e Literatura, n. 21, p. 19-27, 1995.

BRAIT, B. Olhar e ler: verbo-visualidade em perspectiva dialógica bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, v. 8, n. 2, p. 43-66 / Eng. 42-64, 29 nov. 2013.

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[1] Trabalho apresentado no Simpósio de Educação em Ciências na Amazônia. Escola Normal Superior. Universidade do Estado do Amazonas. Manaus, 04 de outubro de 2018.

[2] Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Educação Matemática (PPGECEM) da Universidade Estadual do Oeste do Paraná − Unioeste. Docente do Instituto de Ciências Biológicas na Universidade Federal do Amazonas. E-mail: sauloseiffert@ufam.edu.br.

[3] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação − PPGE da Universidade Estadual do Oeste do Paraná − Unioeste. E-mail: lorraine_mori@hotmail.com.

[4] Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação em Ciências e Educação Matemática − PPGECEM da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. − Unioeste. E-mail: borin.unioeste@gmail.com.